Você olha para o aquário e seu peixe parece polvilhado com sal grosso. Pontinhos brancos pelo corpo, nas nadadeiras, às vezes até nos olhos. Ele coça no substrato, nas plantas, nas pedras. O comportamento mudou.
Isso é ich, e todo aquarista vai encontrar esse parasita pelo menos uma vez na vida. A boa notícia: é tratável. A má notícia: precisa de ação imediata, porque o Ichthyophthirius multifiliis se multiplica rápido. Um peixe com 10 bolinhas hoje pode ter 100 amanhã.
Eu perdi um betta assim. O José foi ficando parado num canto do aquário, e um dia apareceram uns pontinhos brancos no corpo dele, como se tivessem salpicado sal. Fui pesquisar na internet, me perdi entre respostas que se contradiziam, e quando finalmente entendi o que era e encomendei um remédio, ele morreu antes de a encomenda chegar. É por isso que este artigo começa pelo tratamento e não pela teoria: com ich, os dias que você leva para decidir são os dias de tratamento que o peixe não recebe.
Neste artigo:
- O que é o ich e como ele funciona
- Como tratar o ich: protocolo passo a passo
- Ich ou outra doença? Como diferenciar
- Como o ich entra no aquário
- Por que o íctio volta depois do tratamento
- O que o genoma do parasita explica sobre o tratamento
- Perguntas frequentes
O que é o ich e como ele funciona
O ich é um protozoário ciliado que passa por três fases de vida, e só é vulnerável a tratamento em uma delas:
| Fase | Onde está | Vulnerável ao tratamento? | Duração |
|---|---|---|---|
| Trofonte | Dentro da pele do peixe (bolinha branca) | ❌ Não | 3–7 dias |
| Tomont | No substrato, encistado | ❌ Não | 2–5 dias |
| Teronte (livre) | Nadando na água em busca de hospedeiro | ✅ Sim | 24–48 horas |

Isso explica por que o tratamento precisa durar pelo menos 7 a 14 dias: você precisa esperar que todos os parasitas no peixe e no substrato cheguem à fase livre para serem eliminados. Parar o tratamento cedo significa que os cistos que ainda estão no substrato vão liberar novos parasitas e reinfectar tudo.
Como tratar o ich: protocolo passo a passo
Só a fase livre do parasita, que nada procurando um peixe, é vulnerável ao tratamento. Por isso qualquer método precisa continuar depois que as bolinhas somem. Abaixo estão três caminhos, com a fonte de cada um. Escolha conforme a espécie e o aquário.
Método 1, Sal (sem medicamento)
O sal é a opção sem medicamento descrita pelas fontes veterinárias. A UF/IFAS (Universidade da Flórida) cita de 4 a 5 g/L por 7 a 10 dias, a 24 a 26 °C, e o Manual Veterinário Merck cita 5 g/L por uma semana, a partir de 24 °C. Só vale se a espécie tolerar: nem todo peixe suporta, e plantas de aquário podem não suportar.
- Passo 1: Confirme se a sua espécie tolera sal e se o aquário tem plantas ou invertebrados, que podem não suportar
- Passo 2: Mantenha a água entre 24 e 26 °C, a faixa em que a UF/IFAS descreve o tratamento com sal
- Passo 3: Adicione sal marinho sem iodo aos poucos, em mais de uma etapa, até chegar a 4 a 5 g/L
- Passo 4: Mantenha por 7 a 10 dias e continue depois que as bolinhas sumirem, porque ainda há parasitas livres na água
- Passo 5: Mantenha boa aeração e, ao final, faça trocas parciais de água para reduzir o sal aos poucos
Método 2, Calor como complemento
O ich completa o ciclo mais rápido em água mais quente: a UF/IFAS registra cerca de 3 a 6 dias entre 24 e 26 °C, e uma clínica veterinária cita elevar a temperatura, se a espécie tolerar, para acelerar o ciclo. Como só a fase livre é vulnerável, o calor funciona como complemento do sal ou do medicamento, e não como cura por conta própria. Nenhuma das fontes que consultamos fixa um valor de temperatura. Evite o método com peixes de água fria, como o kinguio.

- Eleve a temperatura aos poucos, com o termômetro à vista, e só até onde a espécie tolerar
- Aumente a oxigenação (aerador ou spray bar): água mais quente retém menos oxigênio
- Combine com o sal (método 1) ou com o medicamento (método 3) e mantenha o tratamento depois que as bolinhas sumirem
- Ao final, reduza a temperatura aos poucos
Método 3, Medicamento específico
Para casos graves ou peixes sensíveis ao sal, como tetra neon e coridora, use medicamento específico para ich. O Manual Veterinário Merck informa que os vendidos sem receita costumam combinar formalina e verde de malaquita e são eficazes, e que podem ser necessários de 3 a 7 tratamentos. Siga rigorosamente a bula: subdosagem gera resistência, e esses produtos podem ser tóxicos a camarões e caramujos.

- Retire o carvão ativado do filtro antes de medicar (ele absorve o medicamento)
- Continue o tratamento depois que as bolinhas sumirem, pelo tempo que a bula indicar
- Faça trocas parciais de água entre as doses, se a bula indicar
Ich ou outra doença? Como diferenciar
| Sintoma | Ich | Veludo (Oodinium) | Fungo |
|---|---|---|---|
| Aparência | Bolinhas brancas, tamanho de grão de sal | Pó dourado/enferrujado, partículas menores | Algodão branco em feridas ou nadadeiras |
| Localização | Corpo, nadadeiras, guelras | Todo o corpo, mais denso perto das guelras | Pontos específicos, geralmente feridas |
| Comportamento | Coça em superfícies, agitado | Respiração acelerada, letárgico | Isola-se, nada com dificuldade |
| Progressão | Rápida, dobra em dias | Muito rápida, pode matar em dias | Mais lenta, semanas |
Como o ich entra no aquário
O ich não surge do nada, ele é introduzido. As formas de entrada mais comuns são:
- Peixe novo sem quarentena: a causa número 1. Peixes de loja podem ser portadores assintomáticos
- Plantas aquáticas: o parasita pode viajar na água junto com plantas
- Decoração ou substrato de outro aquário
- Estresse: não introduz o parasita, mas peixes estressados ficam vulneráveis. Qualidade de água ruim, superlotação e temperatura instável favorecem os surtos

A solução preventiva mais eficaz é a quarentena de 2 a 4 semanas para todo peixe novo antes de entrar no aquário principal. Um aquário de quarentena simples de 20 litros com filtro e aquecedor evita a maioria dos problemas.
Para entender como manter a qualidade da água que deixa os peixes resistentes a doenças, leia sobre os parâmetros de água no aquário.
Por que o íctio volta depois do tratamento
Muita gente trata, vê os pontinhos desaparecerem e três semanas depois está tudo de volta. Isso acontece porque o parasita tem um ciclo de vida com fases, e só uma delas é vulnerável à medicação.
Quando o cisto se solta do peixe e cai no substrato, ele se multiplica protegido, e só as larvas livres na água podem ser atingidas pelo remédio. Interromper o tratamento assim que os pontos somem deixa a geração seguinte intacta. A regra prática é manter o tratamento depois que o último ponto visível desaparecer, pelo tempo que a bula ou o método indicar.
Temperatura mais alta acelera o ciclo do parasita e encurta o tempo em que ele fica protegido, o que é justamente o objetivo. Se a espécie tolerar, suba de forma gradual e reforce a aeração, porque água mais quente retém menos oxigênio.
O que o genoma do parasita explica sobre o tratamento
Em 2011, pesquisadores sequenciaram o genoma completo do Ichthyophthirius multifiliis e publicaram o resultado na revista Genome Biology. O que apareceu ali explica bastante sobre por que esse parasita se comporta do jeito que se comporta.
O genoma tem cerca de 50 milhões de pares de base e 8.096 genes. Parece bastante, até você comparar com o parente livre mais próximo dele, o Tetrahymena thermophila, que vive sozinho na água doce sem depender de hospedeiro nenhum e tem 24.725 genes. O íctio ficou com cerca de um terço do kit genético de um primo que se vira sem ninguém.
E o que falta é exatamente o que se esperaria. Ele não consegue produzir o próprio colesterol, não monta purinas e pirimidinas do zero (as peças que formam o DNA) e depende de receber aminoácidos e ácidos graxos já prontos. Traduzindo para o vidro do aquário: ele não fabrica os próprios tijolos, precisa tirar do corpo do peixe.
É por isso que o íctio não é um germe que mora na água e que você elimina esfregando o aquário. É um organismo que literalmente não sobrevive sem peixe. O mesmo trabalho registra que os terontes, a fase livre que nada procurando hospedeiro, morrem sozinhos em 1 a 2 dias se não encontrarem um.
O que isso muda no tratamento
- Explica a explosão de números. Cada cisto que se solta do peixe se divide, dentro da cápsula, em centenas de novos parasitas, que viram formas infectantes em 18 a 24 horas em temperatura ambiente. Não é impressão sua: um punhado de pontos vira infestação em poucos dias.
- Explica por que o remédio não age no que você enxerga. A bolinha branca é o parasita alojado embaixo da pele, protegido. O alvo do tratamento é sempre a geração seguinte, a que ainda vai nadar na água.
- Explica a duração. A fase livre morre sozinha em 1 a 2 dias sem peixe, mas os cistos no substrato vão soltando novas levas ao longo de vários dias. É a soma das duas coisas que faz o tratamento precisar de 7 a 14 dias, e não de dois.
O próprio artigo científico é direto sobre o arsenal disponível: as opções de controle da doença são, nas palavras dos autores, extremamente limitadas. Que é outra forma de dizer o que todo aquarista acaba descobrindo na prática: contra íctio, a quarentena de peixe novo vale mais do que qualquer vidro de remédio na prateleira.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Bolinhas Brancas no Peixe
Peixe com bolinha branca vai morrer?
Não necessariamente, se tratado a tempo. O ich é grave quando ignorado: o parasita se reproduz exponencialmente e, nas guelras, pode causar asfixia. Mas com tratamento iniciado nos primeiros sinais (temperatura + sal ou medicamento), a taxa de recuperação é alta. A chave é agir rápido, cada dia sem tratamento aumenta significativamente a carga parasitária.
Preciso tratar o aquário inteiro ou só o peixe doente?
O aquário inteiro. O ich está no substrato e na água, não só no peixe visível. Mesmo que apenas um peixe mostre bolinhas, todos estão expostos e o ambiente está contaminado. Trate o aquário principal completo. Separar o peixe doente para quarentena só faz sentido se os outros peixes forem muito sensíveis ao tratamento.
Quanto tempo dura o tratamento do ich?
Mínimo de 7 dias, idealmente 14. O erro mais comum é parar quando as bolinhas somem visualmente, nesse ponto, o parasita provavelmente está na fase encistada no substrato. Continue o tratamento depois que as bolinhas sumirem por completo, pelo tempo que o método ou a bula indicar. Parar cedo quase sempre resulta em reinfecção.
Sal de cozinha funciona para tratar ich?
O sal de cozinha sem iodo e sem antiumectante pode funcionar como o sal marinho, ambos aumentam a osmolaridade da água e estressam o parasita. O problema é que a maioria do sal de cozinha brasileiro tem iodo ou antiumectante, que são prejudiciais aos peixes. Use sal marinho específico para aquário ou sal kosher sem aditivos. Nunca use sal de cozinha iodado.
Plantas morrem com o tratamento do ich?
Depende do método. A UF/IFAS alerta que plantas de aquário podem não tolerar o aumento de sal, e algumas espécies de peixe também são sensíveis a ele. Malachite green pode manchar plantas e prejudicar algumas espécies. Se o aquário for muito plantado, o método da temperatura elevada, sem sal nem medicamento, é o mais seguro para a vegetação. Monitore as plantas durante o tratamento.
Íctio mata o peixe?
Pode matar se não tratado, principalmente quando atinge as brânquias. Tratado no início, a taxa de recuperação é alta.
Preciso tirar o peixe do aquário para tratar?
Não. Como o parasita está no aquário inteiro, o tratamento deve ser feito no aquário principal, retirando antes camarões e caramujos se o medicamento for tóxico a invertebrados.
Sal de aquário funciona contra íctio?
Ajuda como coadjuvante em algumas espécies, mas não substitui medicação específica e não deve ser usado com plantas ou invertebrados.
Por que o íctio apareceu do nada?
Normalmente ele entrou com um peixe, uma planta ou água de outro aquário e se manifestou quando a imunidade do peixe caiu, geralmente após queda de temperatura ou estresse.
Quer conhecer um dos peixes de água fria mais populares? Veja o guia de doenças do kinguio.
Fontes de referência: NCBI/PMC e UF/IFAS e Manual Veterinário Merck.
Marina Valença escreve o Aquário Vivo, um guia de aquarismo de água doce para quem está começando. Cada artigo é feito a partir de pesquisa em fontes especializadas, como Seriously Fish e FishBase, e as fontes ficam citadas no final do texto para você conferir. Marina Valença é o nome editorial com que o blog assina seus textos.







